MARIPOSA LILY
Por Eugênia Pickina
Saiba como distinguir as coisas

Confinado

Simplesmente se deixe levar

Por Eugênia Pickina



É quarentena, as pessoas se isolam e as crianças ficam loucas trancadas em casa. Choram, gritam, esperneiam. Na verdade, não é de hoje que essas crianças estão por aí, abandonadas. Já estavam pedindo atenção há muito tempo, mas com o barulho e a correria do dia a dia era fácil ignorá-las.
Agora a pandemia nos força a parar. Faz tudo silenciar e o barulho dessas crianças abandonadas se torna ensurdecedor. E parece que não tem ninguém ali para cuidá-las. E agora, quem poderá nos defender?
Não, nada de Chapolim Colorado, nem de outro herói mais moderno. Nada de olhar para fora em busca de soluções, quando a resposta que realmente importa está dentro de nós.

Que tal aproveitar que o mundo parou e você não pode descer para escutar o que a sua criança abandonada vem tentando te dizer? Se você ainda não o fez, essa é uma oportunidade incrível para cuidar da criança que mora dentro de você e aprender muito com ela!
É, aquela criança que você foi um dia… que era feliz, que se encantava facilmente até com o mais simples da vida, que era criativa e conseguia se divertir com qualquer coisa. É, essa mesma criança que também foi ferida. Que por circunstâncias reais ou por sua interpretação infantil não recebeu todo o amor que desejava. Que se sentiu abandonada e rejeitada. Que achou que não era boa o suficiente. Que acreditou que seus cuidadores eram divinos e se machucou ao tropeçar em sua humanidade, suas limitações.
É, essa criança que está sempre aí do seu lado. Que muitas vezes faz birra, esbraveja, chora desconsolada. E que você, adulto que é hoje, tenta silenciar, sem nem se preocupar em entender o por quê dessas reações desproporcionais.
Sei que é difícil achar espaço na agenda entre tantas preocupações de adulto para ouvir o que a sua criança está tentando lhe dizer. Para acolhê-la e acalmá-la. Para mostrar que ela não está mais sozinha, pois há um adulto que a protege: você!
Mas já imaginou passar todo esse período de quarentena com uma criança gritando e chorando dentro da sua casa? Desesperador, não é? E passar toda a sua vida com essa criança gritando e chorando dentro de você?
A situação que estamos vivendo é difícil de maneiras que ainda não conseguimos nomear ou mesmo imaginar. Mas ela será impossível se não dermos ouvidos aos gritos da criança ferida em nós. É dela que vem parte do desespero que estamos sentindo nesse momento. E é essa parcela de preocupação que está em nossas mãos mitigar. A preocupação decorrente dos fatos não. A parte desproporcional, sim.
Não deixe a sua criança ferida sozinha nesse momento tão difícil. Cuide dela. Mostre a ela que já não importa quão difíceis tenham sido as experiências pelas quais ela passou, pois, de agora em diante, ela estará bem cuidada e acolhida pelo adulto que você se tornou.
Aproveite o isolamento social forçado para se reconectar com você mesmo. Inclusive com as partes que mais doem e assustam.
Na quarentena, adote uma criança: a sua! Só assim será possível saborear a solitude, ao invés de sofrer com a solidão!
Paula Coury
Complexo de Jonas é um mecanismo de defesa do ego que representa a recusa do indivíduo de realizar-se ou de alcançar suas plenas capacidades.
Partindo da premissa de que os personagens bíblicos são expressões de arquétipos do inconsciente coletivo e de que suas jornadas são um manancial de símbolos e metáforas organizadores da própria psique humana, é possível afirmar que a história do profeta Jonas, narrada na Bíblia, descreve a experiência do homem que nega sua dimensão espiritual e se rende a um medo arcaico: o medo de ser diferente e ser rejeitado, o medo de transcender e cair no ostracismo, o que pode significar para ele a própria morte.
Para descrever o que é o Complexo de Jonas, vou resumidamente contar a epopeia desse personagem, ao tempo em que vou correlacionar cada uma de suas passagens ao respectivo conteúdo psicológico subjacente.
Segundo a narrativa bíblica, Jonas foi um profeta que ouviu uma Voz (trata-se aqui de um acontecimento numinoso ou um chamado para ter contato com sua dimensão espiritual), ordenando que ele fosse a Nínive (uma terra distante para ele, de cultura diferente) para dizer ao seu povo que a cidade seria exterminada se não fossem cessadas as crueldades que lá se praticavam (isso seria uma missão que poderia trazer-lhe sucesso, reconhecimento, realização, já que ele era um profeta, mas Jonas teve medo da sua própria grandeza, do seu destino).
Jonas não obedeceu e fugiu de barco para outra cidade (tendo medo de ir em direção ao desconhecido, que eram os costumes do povo de Nínive, receando de ser diferente, ser julgado, ser banido, ser excluído e cair no ostracismo, Jonas fugiu da sua missão, ou, em outras palavras, da sua vocação, uma vez que ele era um profeta).
Durante a travessia, em alto mar, enquanto Jonas dormia (ele estava inconsciente da sua realidade, perdido), foi formada uma tempestade que ameaçava virar o barco (um episódio difícil, uma crise, como as que constantemente a vida nos impõe). O capitão do barco (a consciência maior, que nos avisa intuitivamente o que nos está acontecendo), após descobrir que a tempestade fora provocada pela desobediência de Jonas, tentou acordá-lo (uma tentativa de fazê-lo despertar, para que assumisse a responsabilidade por aquilo que era, por aquilo a que veio). Não conseguindo acordá-lo, lançou-o ao mar (o mar é a representação do inconsciente, enquanto a água é a representação do emocional). Jonas foi engolido por um grande peixe (sem opção, Jonas foi lançado ao encontro do desconhecido), dentro do qual passou três dias e três noites (a “noite sombria da alma”, a crise existencial, a sensação de não ter saída, o sofrimento).

Então, sofrendo e arrependido, ele faz uma oração (um estado alterado de consciência, que permite a conexão com seu Eu Superior, a partir do qual ele poderá enfrentar a sombra, o medo) e promete que vai cumprir a missão que lhe fora solicitada (tentativa de encontrar uma saída). Após isso, o peixe o vomita exatamente em uma praia de Nínive (a vida dá um jeito de nos colocar, repetidas vezes se for necessário, diante daquilo que precisamos fazer ou aprender).
Estando em Nínive, Jonas transmite aos seus habitantes a mensagem de Deus, pedindo-lhes que se arrependam de toda a iniquidade que estavam praticando (momento do enfrentamento, que não é confortável, mas faz parte do processo). Todos ouvem Jonas e se rendem. O rei fica feliz, e Nínive é salva.
Jonas, porém, não fica satisfeito (o ego quer estar no controle). Ele quer que o rei mande matar os que iniciaram aquela situação, ao que o rei não consente, alegando que esses também se arrependeram (o processo de transcendência do ego não é fácil, pois o ego não quer se desapegar, ele quer que as coisas sejam feitas do seu jeito).
Frustrado, Jonas vai para uma cabana no alto de um monte, a fim de se isolar. Um dia, pela manhã, nasce ao lado da cabana uma bela árvore, que oferece a Jonas uma generosa sombra. Este fica maravilhado e feliz (o ego é preso a imagens idealizadas, ilusórias). Mas, ao anoitecer, a árvore morre, deixando Jonas desolado. Então, a Voz vem falar a Jonas novamente: “Jonas, você está nesse estado somente porque uma árvore que nasceu pela manhã morreu ao fim da tarde. No entanto, você queria que mandassem matar todos os meus filhos, que os tenho desde o princípio da criação!” Jonas, então, entende que a sua grande missão era a de conseguir amar o inimigo.
Antes de amar ao inimigo, Jonas precisa aprender a amar a si mesmo, não somente a parte que tem sucesso, mas também a parte que fracassa. Por isso, em última instância, Jonas é o arquétipo do medo de amar.
Precisamos aprender a acolher todas as partes que nos compõem enquanto seres humanos ainda em processo de evolução no aqui e agora. Devemos aprender a aceitar a nossa imperfeição, porque assim vamos conseguir aceitar a imperfeição do outro e a da vida, encontrando o sentido de unidade que nos falta. O caminho para isso começa com o reconhecimento da negatividade que ainda nos constitui e também com o reconhecimento do ser espiritual perfeito e eterno que somos em essência.
Patrícia Maciel
“Eu liberto meus pais do sentimento de que já falharam comigo.
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Eu liberto meus filhos da necessidade de trazerem orgulho para mim; que possam escrever seus próprios caminhos de acordo com seus corações, que sussurram o tempo todo em seus ouvidos.
Eu liberto meu parceiro da obrigação de me completar. Não me falta nada, aprendo com todos os seres o tempo todo.
Agradeço aos meus avós e antepassados que se reuniram para que hoje eu respire a vida.
Libero-os das falhas do passado e dos desejos que não cumpriram, conscientes de que fizeram o melhor que puderam para resolver suas situações dentro da consciência que tinham naquele momento. Eu os honro, os amo e reconheço inocentes.
Eu me desnudo diante de seus olhos, por isso eles sabem que eu não escondo nem devo nada além de ser fiel a mim mesmo e à minha própria existência, que caminhando com a sabedoria do coração, estou ciente de que cumpro o meu projeto de vida, livre de lealdades familiares invisíveis e visíveis que possam perturbar minha Paz e Felicidade, que são minhas únicas responsabilidades.
Eu renuncio ao papel de salvador(a), de ser aquela que une ou cumpre as expectativas dos outros.
Aprendendo através, e somente através, do AMOR, eu abençoo minha essência, minha maneira de expressar, mesmo que alguém possa não me entender.
Eu entendo a mim mesmo(a), porque só eu vivi e experimentei minha história; porque me conheço, sei quem sou, o que eu sinto, o que eu faço e por que faço.
Me respeito e me aprovo.
Eu honro a Divindade em mim e em você. Somos livres.”
(Essa antiga bênção foi criada no idioma Nahuatl, falado desde o século VII na região central do México. Ela trata de perdão, carinho, desapego e libertação.)

Os estudos científicos ocidentais e o pensamento de modo geral foram parametrizados na mecânica de Newton e, portanto, por muito tempo, basearam-se no que era considerado visível e quantificável. Graças a alguns cientistas que ousaram a sair do usualmente conhecido e comprovado e que levantaram novos questionamentos acerca de fenômenos excluídos do rol da ciência foi que surgiu um conjunto de novos conhecimentos denominados de ciências emergentes.
Para muitos desses ousados cientistas, a compreensão da consciência e das energias sutis requer a abertura de espaço para o estudo de fenômenos ainda inexplicáveis e de suas correspondentes leis. E foi um desses novos estudos que levou à descoberta das partículas elementares dos átomos e ao surgimento da hoje conhecida Física Quântica.
Segundo Camarotti (2015), os princípios da Física Quântica tornam mais claros os mecanismos mente-corpo e sugerem que a interação entre o nível bioquímico do corpo e a capacidade da mente de influenciar os sistemas orgânicos pode ser o caminho de compreensão dos fenômenos que envolvem tanto a cura quanto a imunidade relativa aos organismos vivos. A autora assevera que essa nova ciência nos tem mostrado que os seres vivos possuem uma comunicação intrínseca que vai além das leis de interação dimensional tempo-espaço linear. De acordo com esse referencial, a consciência é um princípio organizador, que, ao fazer opções, precipita um evento real. Assim, toda realidade é absolutamente dinâmica em termos de tempo e de espaço, dependendo do olhar do observador, ou seja, a realidade é fruto da consciência da pessoa que observa.
Pode-se deduzir de tudo isso que a capacidade do ser humano de transformar a si mesmo e à realidade depende absolutamente dele mesmo.
A Psicologia Transpessoal pode ser definida como uma nova abordagem voltada para o estudo das capacidades e potencialidades máximas do ser humano. Seu fundador, o psicólogo Abraham Maslow, apontava para a existência de duas vertentes de forças que agem a partir do indivíduo. A primeira pode ser considerada um impulso regressivo, gerado por sentimentos negativos, como o medo e a ansiedade, que levam o indivíduo para a doença. A segunda é um impulso positivo, que ressalva os valores essenciais do indivíduo e que o leva para a saúde. Maslow disse que a exploração e o uso pleno dos talentos, das capacidades e das potencialidades tornam o indivíduo mais saudável e satisfeito, e a isso ele denominou de autorrealização (SALDANHA, 2008).
Ainda segundo Maslow, para além das pulsões de vida e de morte, descritas por Freud, há no ser humano um “aspecto instintoide”, ou uma pulsão de transcendência, que é curativo. Por essa razão, ele também orientou seus estudos para o estabelecimento de uma hierarquia das necessidades humanas, que vão desde as básicas, como a fome e o sono, até as que ele chamou de metanecessidades (inspiradas pela emergência de valores positivos e pelas necessidades de crescimento em direção à unidade cósmica). Concluiu que a frustação dessas metanecessidades ocasiona metapatologias (falta de sentido para a vida), que, por sua vez, podem acarretar doenças as mais diversas (SALDANHA, 2008).
Para Maslow, as abordagens psicodinâmicas em especial debruçavam-se sobre a metade enferma do ser humano, suas neuroses e psicoses; ele propôs uma abordagem voltada para a outra metade, a saudável. Esse enfoque psicológico contempla o ser humano em suas dimensões física, emocional, mental e espiritual e faz uma síntese entre o cognitivo e o valorativo. (SALDANHA, 2008). Em seus estudos, Maslow observou que indivíduos autorrealizados são os que desenvolveram sua dimensão essencialmente espiritual.

A Psicologia Transpessoal, portanto, envolve a dimensão espiritual, as experiências culminantes (momentos especialmente felizes e excitantes na vida do indivíduo), os estados de expansão de consciência, bem como as metanecessidades e a experienciação no processo educacional, na saúde ou nas organizações.
Muitos estudos que antes seriam taxados de não científicos e provavelmente descartados hoje ganham lugar no campo de conhecimento desenvolvido pelas ciências emergentes, dentre as quais se incluem a nova Biologia, a moderna Neurociência e a Psicologia Transpessoal. Todas essas disciplinas estão em franco desenvolvimento e já apontam caminhos para uma maior compreensão dos processos imunológicos e de cura do organismo humano, a partir de correlações entre as funções das áreas cerebrais e fenômenos transpessoais. Em outras palavras, nas últimas décadas, as ciências que se ocupam da saúde estão fazendo grandes reflexões sobre o papel da psique humana no desencadeamento das doenças e nos fatores que envolvem a imunidade.
A Psiconeuroimunologia estuda a conexão entre o cérebro, o comportamento e o sistema imunológico, bem como os resultados dessa interação para a saúde física e psicológica. A hipótese base deste modelo é que os estressores psicossociais diminuem a eficiência do sistema imunológico, o que leva ao aumento de sintomas médicos (MAIA, 2002). Esses estudos também se debruçam sobre a influência das emoções positivas ou negativas no sistema imunológico, responsável pelas defesas orgânicas do ser humano.

A neurologista e psiquiatra Henriqueta Camarotti (2015) afirma que devemos contar com nossas potencialidades e capacidades psíquicas, emocionais e neurofisiológicas a fim de superarmos as enfermidades e que todos os indivíduos podem ser elementos proativos de seu próprio processo de viver saudavelmente. A mesma autora cunhou o termo Consciência Autocurativa para referir-se à “capacidade do ser humano de curar-se através de mecanismos naturais, utilizando-se de caminhos não convencionais, de práticas terapêuticas diferenciadas e de estados não ordinários de consciência” (CAMAROTTI, 2015, p. 34). Ela também afirma que o sistema nervoso, além da função básica de autopreservação do ser, tem o potencial para promover a sua autotranscendência.
Patrícia Maciel
REFERÊNCIAS
CAMAROTTI, Maria Henriqueta. Consciência Autocurativa: Como utilizar seus mecanismos psicocerebrais para alcançar a cura. Brasília: Editora Kiron, 2015.
MAIA, Ângela da Costa. Emoções e Sistema Imunológico: Um olhar sobre a Psiconeuroimunologia. Disponível em: <http://www.conhecer.org.br/download/IMUNOLOGIA/leitura%20anexa%201.pdf> Acesso em 01.jun.2018.
SALDANHA, Vera. Psicologia Transpessoal:Abordagem Integrativa: um Conhecimento Emergente em Psicologia da Consciência. Ijuí: Unijuí, 2008.
Posicionamento da Associação Mundial de Psiquiatria (WPA) sobre Espiritualidade e Religiosidade em Psiquiatria
Seção de Religião, Espiritualidade e Psiquiatria da WPA

World Psychiatric Association
A Associação Mundial de Psiquiatria (WPA) e a Organização Mundial da Saúde (OMS) trabalham arduamente para garantir que a promoção e os cuidados em saúde mental sejam baseados cientificamente e, ao mesmo tempo, compassivos e com sensibilidade cultural1,2. Nas últimas décadas, tem havido uma crescente conscientização da academia e da população geral sobre a relevância da religião e da espiritualidade nas questões de saúde. Revisões sistemáticas da literatura científica identificaram mais de 3.000 estudos empíricos investigando as relações entre religião / espiritualidade (R/E) e saúde3,4.
No campo dos transtornos mentais, demonstrou-se que R/E têm implicações significativas para prevalência (especialmente em transtornos depressivos e por uso de substâncias), diagnóstico (ex.: diferenciação entre experiências espirituais e transtornos mentais), tratamento (ex.: comportamento de busca de tratamento, aderência, mindfulness, terapias complementares), desfechos clínicos (ex.: melhora clínica, e suicídio ) e prevenção, bem como para a qualidade de vida e bem-estar3,4. A OMS já inclui R/E como uma dimensão da qualidade de vida5. Embora haja evidências mostrando que R/E estão geralmente associadas a melhores desfechos de saúde, elas podem também causar danos (ex.: recusa de tratamento, intolerância, coping religioso negativo, etc.). Pesquisas mostraram que valores, crenças e práticas relativas a R/E se mantêm relevantes para a maior parte da população mundial e que pacientes gostariam de ter suas questões em R/E abordadas nos cuidados em saúde6-8.
Psiquiatras precisam levar em conta todos os fatores que afetam a saúde mental. Evidências mostram que R/E devem ser incluídas entre estes, independentemente da orientação espiritual, religiosa ou filosófica dos psiquiatras. No entanto, poucas escolas médicas ou currículos de especialidade fornecem qualquer treinamento formal para psiquiatras aprenderem sobre a evidência disponível ou como abordar adequadamente a R/E tanto na pesquisa quanto na prática clínica7,9.
Para preencher esta lacuna, a WPA e várias outras associações nacionais de psiquiatria (ex.: Brasil, Índia, África do Sul, Reino Unido e EUA) criaram seções em R/E. A WPA incluiu “religião e espiritualidade” como parte do “Curriculum Básico de Treinamento em Psiquiatria”10.
Ambos termos, religião e espiritualidade, carecem de uma definição universalmente aceita. Definições de espiritualidade geralmente se referem a uma dimensão da experiência humana relacionada com o transcendente, o sagrado, ou a realidade última. Espiritualidade está intimamente relacionada com os valores, o significado e o propósito de vida. Espiritualidade pode se desenvolver individualmente ou em comunidades e tradições. Religião é frequentemente vista como o aspecto institucional da espiritualidade, geralmente definida mais em termos de sistemas de crenças e práticas relacionadas com o sagrado ou divino, realizada por uma comunidade ou grupo social3,8.
Independentemente de definições precisas, a espiritualidade e a religião lidam com as crenças fundamentais, valores e experiências dos seres humanos. Portanto, a consideração da sua relevância para as origens, a compreensão e o tratamento dos transtornos psiquiátricos bem como para a atitude do paciente frente à doença deveria estar no centro da psiquiatria acadêmica e clínica. Considerações espirituais e religiosas também têm implicações éticas significativas para a prática clínica da psiquiatria.
1. Uma consideração cuidadosa das crenças e práticas religiosas dos pacientes, bem como a sua espiritualidade, deveriam ser abordadas rotineiramente sendo, por vezes, um componente essencial da coleta da história psiquiátrica.
2. A compreensão da religião e da espiritualidade e sua relação com o diagnóstico, etiologia e tratamento de transtornos psiquiátricos devem ser consideradas como componentes essenciais tanto da formação psiquiátrica como do contínuo desenvolvimento profissional.
3. Há uma necessidade de mais pesquisas sobre religião e espiritualidade em psiquiatria, especialmente sobre suas aplicações clínicas. Estes estudos devem abranger uma ampla diversidade de contextos culturais e geográficos.
4. A abordagem da religião e da espiritualidade deve ser centrada na pessoa. Psiquiatras não devem usar sua posição profissional para fazer proselitismo de visões de mundo seculares ou espirituais. Psiquiatras devem sempre respeitar e ser sensíveis às crenças e práticas espirituais / religiosas de seus pacientes, das famílias e cuidadores de seus pacientes.
5. Os psiquiatras, sejam quais forem suas crenças pessoais, devem estar dispostos a trabalhar com líderes / membros de comunidades religiosas, capelães e agentes pastorais, bem como outros membros da comunidade, em suporte ao bem-estar de seus pacientes e devem incentivar seus colegas multidisciplinares a fazerem o mesmo.
6. Os psiquiatras devem demonstrar consciência, respeito e sensibilidade para o importante papel que a espiritualidade e religiosidade podem desempenhar para muitos funcionários e voluntários na formação de uma vocação para trabalhar no campo dos cuidados em saúde mental.
7. Os psiquiatras devem estar cientes tanto do potencial benéfico quanto prejudicial das práticas e visões de mundo religiosas, espirituais e seculares e estarem dispostos a compartilhar essas informações de forma crítica e imparcial com a comunidade em geral, em apoio à promoção da saúde e bem-estar.
Alexander Moreira-Almeida1,2, Avdesh Sharma1,3, Bernard Janse van Rensburg1,4, Peter J. Verhagen1,5, Christopher C.H. Cook1,6
Publicado como: Moreira-Almeida A, Sharma A, van Rensburg BJ, Verhagen PJ, Cook CC. WPA Position Statement on Spirituality and Religion in Psychiatry. World Psychiatry. 2016 Feb;15(1):87-8.
PUBLICADO EM 26 DE FEVEREIRO DE 2018
Link para o artigo no site da Associação Brasileira de Psiquiatria